Poucos exercícios provocam tanta reação quanto o burpee. Tem gente que ama, a maioria odeia, mas ninguém fica indiferente — porque 10 repetições bem feitas deixam qualquer pessoa ofegante. E é exatamente por isso que ele funciona: o burpee combina agachamento, prancha, flexão e salto num único movimento, recrutando praticamente o corpo inteiro enquanto o coração dispara. Neste artigo ensino a técnica passo a passo, as variações para cada nível e os erros que vejo todos os dias.
O que é o burpee e por que ele é tão exigente
O burpee nasceu na década de 1930 como teste de condicionamento físico criado pelo fisiologista Royal Burpee, nos Estados Unidos. A versão moderna virou queridinha do treinamento funcional e do CrossFit por um motivo simples: ele junta trabalho muscular e cardiovascular ao mesmo tempo.
Numa única repetição você usa quadríceps e glúteos (agachar e saltar), peito, ombro e tríceps (flexão), core inteiro (prancha e transições) e panturrilhas (salto). Além disso, as trocas rápidas de posição — em pé, no chão, em pé de novo — obrigam o coração a bombear sangue para regiões diferentes do corpo em segundos. Resultado: a frequência cardíaca sobe mais rápido do que em quase qualquer outro exercício com peso corporal. Estudos mostram que exercícios calistênicos de corpo inteiro como o burpee geram demanda metabólica comparável à de tiros em bicicleta ergométrica.
Na prática, um burpee em ritmo vigoroso queima na faixa de 10 a 15 calorias por minuto, dependendo do peso e da intensidade. Mas, assim como falo em todos os meus artigos, exercício nenhum emagrece sem contexto: o resultado aparece quando o treino soma com um déficit calórico bem calculado.
Como fazer o burpee: passo a passo
- Posição inicial: em pé, pés na largura dos ombros, abdômen levemente contraído.
- Agache e apoie as mãos no chão, na frente dos pés, na largura dos ombros.
- Lance as pernas para trás, caindo em posição de prancha alta — corpo em linha reta da cabeça ao calcanhar, sem deixar o quadril despencar.
- Faça uma flexão de braço: desça o peito controlado até perto do chão e suba (na versão completa; iniciantes podem pular essa etapa).
- Traga os pés de volta para perto das mãos, com um salto ou um passo de cada vez.
- Suba e salte verticalmente, estendendo o quadril por completo, com os braços acima da cabeça.
- Aterrisse com os joelhos levemente flexionados e emende a próxima repetição.
O detalhe que muda tudo: as transições devem ser controladas, não jogadas. Quem "desaba" na prancha e "chicoteia" a lombar para voltar está pedindo lesão. Melhor 8 repetições limpas do que 20 desengonçadas.
Variações do iniciante ao avançado
O burpee completo é avançado. A boa notícia é que ele se adapta a qualquer nível — e a progressão é meio caminho para a motivação. Uso essa escada com meus alunos:
| Nível | Variação | Como fica o movimento |
|---|---|---|
| Iniciante absoluto | Burpee com passo, sem flexão e sem salto | Agacha, leva uma perna de cada vez para trás, volta e fica em pé (sem saltar) |
| Iniciante | Burpee sem flexão e sem salto | Pernas vão juntas para trás, mas sem flexão; termina em pé com extensão de braços |
| Intermediário | Burpee sem flexão, com salto | Prancha, volta e salta; a flexão ainda fica de fora |
| Intermediário+ | Burpee com flexão de joelhos apoiados | Adiciona a flexão em versão facilitada |
| Avançado | Burpee completo | Flexão completa + salto vertical |
| Muito avançado | Burpee com salto sobre obstáculo ou pull-up | Para quem já domina o completo e quer novo estímulo |
Regra prática: só suba de nível quando conseguir 3 séries de 10 repetições com técnica limpa na variação atual. Se a flexão é o seu ponto fraco, vale fortalecer esse padrão em separado — explico como evoluir do zero no artigo quantas flexões por dia.
Quantos burpees fazer por treino?
- Iniciante: 3 séries de 5 a 8 repetições da variação adequada, com 60 a 90 segundos de descanso.
- Intermediário: 4 séries de 10 a 12, ou blocos de 30 segundos de trabalho por 30 de descanso.
- Avançado: protocolos intervalados — por exemplo, 8 rodadas de 40 segundos forte por 20 de descanso, ou o burpee inserido em circuitos com outros exercícios.
O burpee rende demais dentro de circuitos intervalados. Se quiser um treino estruturado para usar em casa, montei um guia completo de HIIT em casa — e se ainda tem dúvida se esse formato vale a pena, leia HIIT funciona?.
Erros comuns (e como corrigir)
- Lombar caída na prancha: o erro mais perigoso. Quando o quadril despenca, a lombar vira dobradiça e absorve o estresse. Correção: contraia abdômen e glúteo antes de lançar as pernas para trás; se não consegue manter a linha, volte para a variação com passo.
- Chicotear a subida: arquear a lombar para "quicar" do chão. Correção: suba em bloco, como numa flexão bem feita.
- Aterrissar duro no salto: joelhos estendidos na queda castigam as articulações. Correção: caia macio, com joelho e quadril flexionando levemente.
- Punhos reclamando: mãos mal posicionadas ou falta de força de punho. Correção: dedos abertos, peso distribuído na palma inteira; se persistir, use apoios de flexão.
- Prender a respiração: comum quando o cansaço bate. Expire ao subir da flexão e ao saltar.
Quando evitar o burpee
Ser excelente não significa ser para todo mundo, em qualquer momento. Eu não prescrevo burpee — ou prescrevo apenas versões muito adaptadas — nestes casos:
- Obesidade importante: o impacto do salto e a pressão nos punhos são grandes para quem carrega muitos quilos. Há caminhos melhores para começar — mostro no artigo sobre musculação para quem está com obesidade.
- Dor no punho, ombro ou lombar: o burpee sobrecarrega exatamente essas três regiões. Dor persistente que aparece durante ou depois do exercício não é "frescura": é sinal de que algo na mecânica ou na estrutura precisa de avaliação profissional antes de continuar.
- Hipertensão descontrolada ou problemas cardíacos: o burpee dispara a frequência cardíaca muito rápido. Liberação médica primeiro, sempre.
- Sedentarismo total: sair do sofá direto para o burpee é o caminho mais curto para desistir. Comece pela base — escrevi um guia de exercícios para sedentários justamente para isso.
Burpee emagrece? O papel dele no gasto calórico
Vale reforçar: o burpee é uma ferramenta excelente de emagrecimento pela eficiência, não por mágica. Dez minutos de intervalado com burpees geram um gasto que rivaliza com 20 a 25 minutos de cardio moderado, além de um pequeno efeito de consumo elevado de oxigênio pós-exercício (EPOC) — o corpo continua gastando um pouco mais nas horas seguintes. Mas o EPOC é bem menor do que a internet promete: some 6% a 15% do gasto da sessão, não "queima por 48 horas". Traduzindo: o burpee acelera o processo, mas quem decide o resultado continua sendo a alimentação. Sem déficit, nem burpee resolve; com déficit, ele é um dos maiores aliados de quem tem pouco tempo para treinar.
O burpee na minha história
Quando pesava 40 kg a mais, burpee era humanamente impossível para mim — e tudo bem. Comecei com caminhada e musculação básica, e o burpee só entrou na minha rotina muito depois, primeiro na versão com passo, sem flexão e sem salto. Hoje ele é presença constante nos meus circuitos. Conto isso porque muita gente olha o exercício "completo" no vídeo e desanima. A comparação certa não é com o atleta do vídeo: é com você de um mês atrás. Progressão vence intensidade, sempre.
Se você treina em casa e quer encaixar o burpee num programa maior, com força e cardio equilibrados, dá uma olhada no meu treino em casa sem equipamento — o burpee é uma das peças, não o plano inteiro.
O burpee é o teste perfeito do "é só fazer" — falo sobre essa mentalidade neste Short:
Referências
- Gist NH, Freese EC, Cureton KJ. Comparison of responses to two high-intensity intermittent exercise protocols. Journal of Strength and Conditioning Research, 2014.
- Machado AF et al. High-intensity interval training using whole-body exercises: training recommendations and methodological overview. Clinical Physiology and Functional Imaging, 2019.
- McRae G et al. Extremely low volume, whole-body aerobic-resistance training improves aerobic fitness and muscular endurance in females. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, 2012.
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