"Montinho, tem que descer contando três segundos?" Essa pergunta aparece toda semana, geralmente vinda de quem leu que "tempo sob tensão é tudo" ou viu alguém fazendo repetições de dez segundos e jurando que aquele era o segredo. Eu entendo o apelo: contar segundos parece científico e dá a sensação de estar fazendo algo mais elaborado. Mas a realidade é mais simples e menos glamourosa.
A evidência atual sugere que a hipertrofia acontece numa faixa relativamente ampla de cadências, e que velocidades muito lentas — acima de uns dez segundos por repetição — parecem render menos, provavelmente porque obrigam a reduzir muito a carga. Vamos entender o porquê e, principalmente, quando vale a pena mexer nesse parâmetro.
As fases da repetição
Toda repetição tem quatro momentos, e a notação de cadência costuma listá-los em quatro números:
- Excêntrica: a fase de alongamento sob carga. Descer no supino, descer no agachamento, descer a rosca.
- Pausa embaixo: transição na posição alongada.
- Concêntrica: a fase de encurtamento. Empurrar, puxar, subir.
- Pausa em cima: transição na posição encurtada.
Uma cadência escrita como 3-1-1-0 significa três segundos descendo, um segundo de pausa embaixo, um segundo subindo e nenhuma pausa em cima. Já 2-0-X-0 significa dois segundos descendo, sem pausa, subindo o mais rápido possível ("X" de explosivo).
A fase excêntrica gera mais tensão por unidade de esforço e está mais associada ao dano muscular e à dor tardia. Isso levou a uma ideia popular de que "o excêntrico é onde o músculo cresce". Ele é importante, sim — pular a descida jogando o peso é desperdício —, mas não é um botão mágico.
O mito do tempo sob tensão
A lógica intuitiva é: mais tempo sob tensão, mais estímulo. Se fosse assim, a melhor série do mundo seria segurar um peso leve por dez minutos. Não é o que acontece.
O que parece importar é a tensão mecânica alta nas fibras, especialmente nas repetições em que a fadiga já obriga o sistema nervoso a recrutar as unidades motoras de maior limiar. Isso acontece perto da falha — independente de a repetição ter durado dois ou seis segundos. Quando você desacelera muito, precisa reduzir tanto a carga que a tensão por repetição cai, e o saldo tende a ficar pior.
Uma revisão clássica de Schoenfeld sobre velocidade de repetição encontrou hipertrofia semelhante em cadências entre aproximadamente 0,5 e 8 segundos por repetição, com queda quando se passava muito disso. É uma faixa enorme. Ou seja: dentro do que a maioria das pessoas faz naturalmente, cadência não é o fator limitante do seu resultado.
| Cadência por repetição | Efeito esperado | Observação prática |
|---|---|---|
| Explosiva (menos de 1 s) | Boa para força e potência | Exige técnica; risco se descontrolar a descida |
| 2 a 4 s | Faixa padrão para hipertrofia | Onde a maioria das séries deve viver |
| 4 a 8 s | Ainda produz hipertrofia | Útil para controle e aprendizado |
| Acima de 10 s | Tende a render menos | Carga cai demais; uso pontual |
O detalhe que muda tudo
Se você fizer duas séries até a falha, uma rápida e outra lenta, a série lenta terá menos repetições e menos carga. Se você fizer as duas com o mesmo número de repetições, a lenta será mais difícil apenas porque acumulou mais fadiga — não porque foi intrinsecamente melhor. Por isso comparar "tempo sob tensão" entre protocolos diferentes é enganoso. O que precisa ser comparado é o esforço real de cada série, medido por proximidade da falha, tema que eu detalhei em escala RPE na musculação.
Quando vale desacelerar
Existem motivos muito bons para controlar o movimento — só que nenhum deles é "acumular segundos".
- Aprendizado técnico. Movimento novo se aprende devagar. Quando eu ensino agachamento para alguém que nunca fez, a descida controlada é obrigatória até o padrão ficar estável. Isso vale ainda mais para os padrões complexos, como os que eu descrevo em como fazer agachamento livre corretamente.
- Eliminar impulso. Se você balança o tronco na rosca ou salta o quadril no leg press, desacelerar expõe o truque e força o músculo a trabalhar.
- Segurança na posição alongada. Descer rápido e usar o rebote no fundo do agachamento, do stiff ou do crucifixo é onde mora boa parte do risco. Controlar essa parte é prevenção, e isso conecta com o que eu falo em como prevenir lesões no treino.
- Conexão com o músculo alvo. Em isolamentos, desacelerar ajuda a sentir o músculo trabalhando, o que na prática melhora a execução.
- Reabilitação e retorno de lesão. Protocolos de fisioterapia usam muito cadência controlada, com carga baixa e alta previsibilidade. Se você tem dor articular persistente, esse é território de avaliação médica ou fisioterapêutica, não de improviso.
- Falta de equipamento. Treinando em casa com halteres leves, desacelerar aumenta a dificuldade quando não há como subir peso.
Quando vale acelerar
Do outro lado, a intenção de mover rápido tem lugar próprio:
- Força máxima. Mesmo com barra pesada, que se move devagar por conta da carga, a intenção de acelerar aumenta o recrutamento. Isso é bem estabelecido no treinamento de força e aparece nas estratégias de como aumentar a força muscular.
- Potência e esporte. Saltos, arremessos, arrancadas e variações olímpicas dependem de velocidade. Aqui a cadência lenta é contraproducente.
- Idosos e capacidade funcional. Treinar a velocidade de produção de força ajuda em tarefas como levantar da cadeira e reagir a tropeços.
- Manutenção de qualidade nas repetições finais. Se a velocidade de subida cai drasticamente, é sinal de que você está muito perto da falha. Isso é informação útil.
Uma ressalva importante: "acelerar" se refere à fase concêntrica. A descida continua precisando de controle. Empurrar rápido e depois deixar o peso cair não é treino explosivo, é descuido.
Minha recomendação prática
Para 90% das pessoas que eu acompanho em Alphaville, a orientação cabe em uma frase: desça em cerca de 2 segundos com controle e suba com intenção de acelerar, sem jogar o peso. Sem contar segundos em voz alta, sem cronômetro, sem transformar a série numa aula de matemática.
Depois disso, ajustes pontuais:
- Exercício novo ou complexo: descida de 3 segundos e pausa curta embaixo até dominar.
- Isolamentos e finalizações: controle mais evidente, porque a carga é baixa e o risco é mínimo.
- Compostos pesados na faixa de 5 a 8 repetições: descida controlada, subida rápida.
- Fases de força ou potência: intenção máxima na concêntrica.
E antes de mexer em cadência, garanta que o básico está em ordem: volume adequado, séries próximas da falha, progressão registrada e recuperação decente. Cadência é ajuste fino, não é fundação. Se o seu treino está travado, a causa quase nunca está nos segundos da descida — está em algum dos pontos que eu listei em como sair do platô da musculação.
O caso do super lento
Protocolos de super slow, com repetições de dez segundos ou mais, foram muito populares nos anos 90. A pesquisa desde então não sustentou a superioridade. Eles não são inúteis — geram esforço enorme e podem ser úteis para quem tem restrições de carga —, mas como estratégia principal de hipertrofia tendem a ficar atrás de cadências normais com mais carga. Vale lembrar que essa área ainda tem lacunas: a maioria dos estudos é de curta duração e usa poucos exercícios, então a confiança é moderada, não absoluta.
E as pausas?
Pausas dentro da repetição merecem menção. Pausar 1 a 2 segundos na posição alongada elimina o rebote, aumenta a dificuldade e pode ser útil em exercícios como supino, agachamento e stiff. Pausar na posição encurtada faz sentido em exercícios que carregam o encurtamento, como elevação lateral e extensão de quadril. São ferramentas simples e bem mais úteis do que cronometrar cada fase.
Fechando
Cadência importa o suficiente para você não jogar o peso, e importa pouco o bastante para você não perder o sono contando segundos. Faça a descida com controle, suba com intenção, mantenha a técnica estável até o fim da série e coloque sua energia mental na progressão. Foi assim que eu construí meu próprio processo depois de perder mais de 40 kg, e é assim que eu conduzo quem treina comigo.
Controlar a execução é disciplina aplicada à série — tema que converso neste Short do meu canal:
Referências
- Schoenfeld BJ, Ogborn DI, Krieger JW. Effect of repetition duration during resistance training on muscle hypertrophy: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, 2015.
- Wilk M, Zajac A, Tufano JJ. The influence of movement tempo during resistance training on muscular strength and hypertrophy responses. Sports Medicine, 2021.
- Davies TB, Kuang K, Orr R, Halaki M, Hackett D. Effect of movement velocity during resistance training on dynamic muscular strength: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, 2017.
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