Eu pesava 40 kg a mais do que peso hoje. E preciso te contar uma coisa que talvez ninguém tenha te contado: nesse processo inteiro, houve muito mais dias em que eu não quis treinar do que dias em que eu acordei animado. A diferença entre quem chega e quem desiste não é a quantidade de vontade. É o que a pessoa faz quando a vontade não aparece.
Este texto é sobre isso. Não vou te dar frase de motivação, porque frase de motivação dura 20 minutos. Vou te dar o que sustenta treino por anos: hábito, ambiente e algumas decisões tomadas antes do dia ruim chegar.
A verdade sobre motivação
Motivação é um estado emocional. Ela oscila com sono, estresse, hormônio, tempo, notícia ruim no trabalho, briga em casa. Esperar motivação para treinar é como esperar vontade para escovar os dentes: se dependesse disso, ninguém escovaria em dia ruim.
A indústria fitness vende motivação porque motivação vende bem. Vídeo com música épica, frase de guerreiro, "sem desculpas". O problema é que isso cria uma expectativa errada — a de que quem treina há dez anos sente vontade todos os dias. Não sente. Eu não sinto. Ninguém que eu conheço que treina há muito tempo sente.
O que essas pessoas têm é hábito e ambiente. O hábito reduz o número de decisões. O ambiente reduz o atrito. Juntos, eles fazem com que treinar exija menos energia mental do que não treinar. Esse é o objetivo real.
Como eu passei pelos dias ruins nos 40 kg
Quando eu comecei, eu era o cara gordo da academia. Cansava rápido, não sabia usar os aparelhos, tinha vergonha, e várias vezes fiquei no carro no estacionamento pensando em ir embora. Se eu tivesse esperado motivação, eu teria voltado para casa em quase todas essas noites.
O que me salvou foi ridiculamente simples: eu combinei comigo mesmo que eu não precisava treinar bem, eu só precisava aparecer. Entrar, fazer o que desse, sair. Alguns dias eu fiz um treino excelente. Outros eu fiz 20 minutos porcaria e fui embora. Mas o número de vezes que eu apareci foi o que construiu o resultado — não a qualidade média das sessões.
Levou tempo. Não emagreci 40 kg em quatro meses, e desconfie de quem promete isso. Foi um processo longo, com platôs, com semanas ruins, com fins de semana que apagaram o déficit da semana inteira. O que fez diferença foi nunca deixar a pausa virar abandono.
As estratégias que realmente funcionam
1. A regra dos 10 minutos
Combine com você mesmo: eu vou até a academia e faço 10 minutos. Se depois de 10 minutos eu ainda quiser ir embora, eu vou, sem culpa. Na prática, em cerca de 8 de cada 10 vezes você continua — porque a maior barreira não é o treino, é o começar. E nas 2 vezes que você for embora depois de 10 minutos, você ainda fez mais do que teria feito ficando em casa, e manteve a identidade de quem vai.
2. Reduza o atrito ao absurdo
Cada obstáculo entre você e o treino custa vontade. Elimine-os antes:
- Roupa de treino separada na noite anterior, ou já vestida ao sair do trabalho.
- Mochila pronta no carro.
- Academia no caminho de casa ou do trabalho, não a 20 minutos de desvio.
- Treino escrito e planejado — decidir o que fazer na hora é um gasto mental enorme.
- Horário fixo, sempre o mesmo, para não precisar decidir "quando" todo dia.
Cada uma dessas coisas parece pequena. Somadas, elas transformam "vou ver se dá" em "já estou indo".
3. Reduza a meta, nunca a frequência
Dia ruim não é dia de pular — é dia de treino menor. Cansado? Faça metade. Sem tempo? Faça três exercícios. Sem ânimo? Faça só o que você gosta. Um treino ruim vale infinitamente mais que um treino pulado, porque o treino ruim preserva o hábito e o pulado abre precedente.
Essa é provavelmente a dica mais valiosa deste texto. A maioria das pessoas não abandona o treino de uma vez — abandona faltando um dia, depois dois, depois a semana inteira. Manter a frequência mesmo em versão reduzida é o que impede essa cascata.
4. Nunca pule duas seguidas
Regra simples e poderosa. Faltou hoje? Tudo bem, acontece. Mas amanhã é inegociável, nem que seja em versão mínima. Uma falta é um evento. Duas faltas seguidas é o início de um padrão.
5. Ancore em algo que já existe
Hábito novo pega melhor quando gruda em hábito antigo. "Depois que eu deixar as crianças na escola, eu vou treinar." "Ao sair do trabalho, eu vou direto." A âncora remove a decisão. Sem âncora, o treino compete com tudo que aparecer no dia — e perde.
6. Torne o treino menos horrível
Muita gente odeia treinar porque escolheu um treino que odeia. Se você detesta esteira, não faça esteira. Existe musculação, funcional, natação, bike, dança, luta, corrida ao ar livre. O melhor exercício é o que você faz de forma consistente. Playlist boa, podcast bom, um parceiro de treino — isso muda a experiência mais do que as pessoas admitem.
7. Meça o processo, não só o resultado
Balança sobe e desce por água, sal, ciclo menstrual, intestino. Se sua única métrica é o peso, sua motivação vai oscilar junto com ela. Registre também: quantos treinos você fez este mês, quanta carga você aumentou, quantos passos por dia. Progresso visível em algo que você controla sustenta muito mais.
Preguiça ou cansaço? Não é a mesma coisa
Aqui está uma distinção que quase ninguém faz e que importa muito.
| Sinal | Provável preguiça | Possível cansaço real |
|---|---|---|
| Aparece em dias específicos | Sim | Não, é constante |
| Some depois de 10 min de treino | Sim | Não, piora |
| Você tem energia para outras coisas | Sim | Não, é geral |
| Dorme bem e acorda cansado | Não | Sim |
| Dura semanas seguidas | Não | Sim |
Se a coluna da direita descreve você, isso não é preguiça e não se resolve com disciplina. Cansaço extremo e persistente pode ter causa clínica: anemia, alterações de tireoide, deficiência de vitamina D ou B12, apneia do sono, efeitos de medicação, depressão. Nesses casos, o caminho é médico, não motivação. Insistir em "vencer pela força de vontade" só faz a pessoa se sentir fracassada por algo que é fisiológico. Eu escrevi mais sobre esse tema em cansaço e falta de disposição.
E vale lembrar do óbvio: quem dorme 5 horas por noite não tem problema de motivação, tem problema de sono. Treinar sem dormir é remar contra a maré.
O que não funciona
Sendo honesto sobre os erros que eu mais vejo:
- Começar com seis dias por semana. Ambição alta na primeira semana é o preditor mais confiável de abandono na quarta. Comece com dois ou três e aumente quando esses estiverem sólidos.
- Treino como punição. "Comi pizza, vou queimar." Isso transforma exercício em fatura e destrói a relação com ele. Treino é investimento em saúde e força, não pagamento de dívida alimentar.
- Depender de motivação externa. Vídeo motivacional, desafio de 30 dias, aposta com amigo. Funciona por um tempo, e é exatamente por isso que falha — porque acaba.
- Tudo ou nada. "Se não posso fazer o treino completo, não faço nada." Esse pensamento é responsável por mais abandono do que qualquer lesão. Ele também é o motor do efeito sanfona.
- Se comparar com quem treina há dez anos. Você está comparando seu dia 15 com o ano 10 de alguém. Se o que te trava é o ambiente da academia, vale ler vergonha de treinar na academia — quase todo mundo passa por isso.
Sobre voltar depois de parar
Você vai parar em algum momento. Viagem, gripe, projeto no trabalho, crise pessoal. Isso não é fracasso, é vida. O que importa é o tempo entre parar e voltar.
Quando voltar, volte pequeno. Não tente compensar as semanas perdidas com um treino de duas horas — você vai ficar destruído por três dias e associar o retorno a sofrimento. Volte com metade do volume, sem carga máxima, apenas para reativar o hábito. A força volta rápido; o hábito é que demora a reconstruir. Se você está saindo de um período longo parado, o caminho está em exercício para quem está saindo do sedentarismo.
O que eu realmente aprendi nos 40 kg
Não foi que eu sou disciplinado. Eu não sou especialmente disciplinado. O que eu aprendi foi que consistência medíocre bate perfeição intermitente todas as vezes. Três treinos por semana feitos sem entusiasmo por dois anos produzem uma transformação que seis treinos por semana feitos com paixão durante seis semanas nunca vão produzir.
E aprendi que o resultado nunca é linear. Tem mês que a balança não anda. Tem semana que você faz tudo certo e não vê nada. Isso é normal, e depende de individualidade, de quanto déficit você realmente está fazendo, de sono, de estresse, de genética. Ninguém pode te prometer um número em uma data — quem promete está vendendo alguma coisa.
O que eu posso dizer, com honestidade, é o seguinte: nos dias em que você não quiser ir e for mesmo assim, mesmo que para fazer metade, você está construindo exatamente a coisa que separa quem muda de quem só tenta. Não é glamouroso. É só aparecer, de novo, na quarta-feira comum de uma semana comum.
No dia ruim, o que separa quem evolui de quem desiste é a mentalidade — falo sobre ela neste Short:
Referências
- Lally P et al. How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology, 2010.
- Rhodes RE, de Bruijn GJ. How big is the physical activity intention-behaviour gap? British Journal of Health Psychology, 2013.
- Ekkekakis P et al. The pleasure and displeasure people feel when they exercise at different intensities. Sports Medicine, 2011.
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