Se você está usando Saxenda (liraglutida) com prescrição médica, provavelmente já sentiu o efeito principal: a fome diminui de verdade. Comer menos fica mais fácil, o peso começa a cair — e junto vem uma dúvida que quase nenhum aluno traz respondida do consultório: e o treino? Como fica?
A resposta importa muito. Porque quando o corpo perde peso rápido comendo pouco, ele não queima só gordura: sem os estímulos certos, uma fatia relevante do peso perdido vem da massa muscular. E perder músculo significa metabolismo mais lento, corpo flácido no final do processo e terreno fértil para o efeito sanfona quando o tratamento terminar.
Antes de seguir, o combinado deste artigo: quem decide sobre o uso, dose e duração do Saxenda é o seu médico — não é papel meu recomendar ou desaconselhar medicamento. Meu papel, e o foco daqui em diante, é o que está no meu campo: como treinar e se estruturar para que o peso perdido durante o tratamento seja gordura, não músculo.
O que o Saxenda faz — e o que ele não faz
A liraglutida é um análogo de GLP-1, hormônio que regula apetite e saciedade. Aplicada diariamente, ela reduz a fome e a ingestão calórica. No estudo SCALE, publicado no New England Journal of Medicine, participantes usando liraglutida 3,0 mg perderam em média cerca de 8% do peso corporal, contra 2,6% do grupo placebo (Pi-Sunyer et al., 2015).
O que o medicamento não faz:
- Não escolhe de onde vem o peso perdido — gordura ou músculo dependem do treino e da proteína;
- Não constrói hábito, técnica ou força — isso é trabalho seu;
- Não garante manutenção do resultado depois — quem segura o peso lá na frente é a estrutura criada durante o tratamento.
Em outras palavras: o Saxenda abre uma janela. O que você constrói dentro dela é que define o resultado final.
O risco real: emagrecer encolhendo o músculo
Em qualquer emagrecimento sem treino de força, estima-se que 20 a 30% do peso perdido possa vir de massa magra — às vezes mais, quando o déficit é agressivo e a proteína é baixa. Com o apetite suprimido pela medicação, esse cenário fica ainda mais provável: a pessoa come pouco sem esforço, a proteína despenca junto com as calorias, e o músculo vira combustível.
As consequências de perder músculo no processo:
- Metabolismo reduzido — menos massa magra, menos calorias gastas em repouso;
- Aparência "murcha" — peso menor, mas corpo sem firmeza;
- Menos força e disposição no dia a dia;
- Reganho facilitado — ao fim do tratamento, a fome volta para um corpo que gasta menos.
A boa notícia: a ciência é clara sobre o antídoto. Treino de força durante a perda de peso preserva (e em iniciantes pode até aumentar) a massa muscular, como demonstram ensaios clínicos de emagrecimento com exercício resistido (Villareal et al., 2017).
Para aprofundar no tema medicamentos de emagrecimento e treino, veja a conversa abaixo:
Os 4 pilares do treino para quem usa Saxenda
1. Musculação como prioridade inegociável
- Frequência: 3 a 4 sessões por semana — corpo inteiro (3x) ou divisão AB (4x);
- Base: exercícios compostos — agachamento, supino, remada, desenvolvimento, terra ou variações;
- Intensidade: cargas desafiadoras na faixa de 6 a 15 repetições. O sinal de "manter esse músculo" só é enviado quando o esforço é real;
- Progressão: tente ao menos manter as cargas durante o déficit. Manter força emagrecendo já é vitória; em iniciantes, dá para subir.
2. Proteína alta — o desafio número um com apetite suprimido
Aqui mora a maior dificuldade prática: o Saxenda corta a fome, e a proteína é o que primeiro despenca. A meta durante o emagrecimento medicado fica entre 1,6 e 2,2 g por kg de peso por dia, fracionada em 3 a 5 refeições. Estratégias que funcionam com pouco apetite:
- Comece cada refeição pela proteína — se a saciedade chegar cedo, o essencial já entrou;
- Use fontes densas: ovos, carnes magras, laticínios proteicos;
- Whey protein é um atalho válido quando comer sólido está difícil;
- Monitore por alguns dias em aplicativo — com apetite suprimido, a percepção de "comi bastante proteína" engana muito.
Montei um guia completo de cálculo e distribuição em quanta proteína por dia.
3. Cardio na dose certa
Com as calorias já reduzidas pela medicação, exagerar no aeróbico aprofunda demais o déficit e aumenta o risco de perda muscular. A receita sensata: 2 a 4 sessões semanais de 20 a 35 minutos, leves a moderadas, sempre priorizando energia para a musculação. Caminhada diária conta e soma.
4. Recuperação: sono e escuta do corpo
Náusea é efeito adverso comum da liraglutida, principalmente nos ajustes de dose. Nos dias ruins, reduza o volume do treino em vez de zerar — uma sessão curta mantém o estímulo e o hábito. Durma 7 a 9 horas: é no sono que músculo se preserva e fome se regula. E relate sintomas persistentes ao médico que prescreveu.
Como monitorar se você está no caminho certo
A balança sozinha não responde à pergunta que importa — "estou perdendo gordura ou músculo?". Acompanhe:
- Composição corporal a cada 4 a 8 semanas — a bioimpedância bem interpretada mostra se a massa magra está sendo preservada;
- Cargas do treino — força estável ou subindo é o melhor indicador prático de músculo preservado;
- Medidas e fotos mensais — cintura caindo com braços e pernas estáveis é o cenário ideal;
- Velocidade da perda — quedas muito bruscas de peso semana após semana merecem conversa com o médico e ajuste do plano alimentar.
Pensando no depois: o tratamento acaba, o treino fica
Todo tratamento medicamentoso de emagrecimento tem um horizonte de término, definido pelo médico. Quando o efeito de supressão do apetite sai de cena, o que segura o resultado é o que foi construído durante: massa muscular, hábito de treino, rotina alimentar com proteína e um metabolismo que não foi destruído no processo.
Por isso insisto: use o período de medicação como fase de construção, não apenas de redução. Quem sai do tratamento mais forte, com hábito consolidado de 3-4 treinos semanais, tem outra probabilidade de manter o peso — e é exatamente essa estrutura que desenvolvo com alunos na consultoria.
Saxenda, Ozempic, Wegovy, Mounjaro: o princípio é o mesmo
Os análogos de GLP-1 (e afins) diferem em molécula, dose e frequência de aplicação, mas do ponto de vista do treino a lógica é idêntica: apetite suprimido + déficit calórico = risco muscular que se combate com musculação e proteína. Escrevi guias específicos para cada contexto:
Se o seu médico trocar a medicação ao longo do caminho, o plano de treino segue praticamente o mesmo — e é ele que faz a diferença no resultado final.
Conclusão: o remédio abre a porta, o treino constrói a casa
O Saxenda, prescrito e acompanhado pelo médico, pode ser uma ferramenta valiosa para reduzir o apetite e viabilizar o déficit calórico. Mas a qualidade do emagrecimento — quanto vem de gordura, quanto vem de músculo — é decidida fora do consultório: na musculação 3 a 4 vezes por semana, na proteína em cada refeição, no cardio dosado e no sono em dia.
Trate o período de tratamento como a sua janela de construção. O peso que você perde é temporariamente mérito da caneta; o corpo e o metabolismo com que você sai do processo são mérito do seu treino.
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