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Treinar Menstruada Pode? Como Ajustar o Treino ao Ciclo Menstrual

Montinho Personal Trainer··10 min de leitura·

Essa é uma das perguntas que mais recebo das minhas alunas: "Montinho, posso treinar menstruada?" E a resposta, com respaldo da ciência e da prática de anos acompanhando mulheres, é clara: pode — e, para a maioria, faz bem. O exercício durante a menstruação é seguro, tende a aliviar cólicas leves e melhora o humor. Mas a resposta completa é mais interessante do que um simples "pode": o ciclo menstrual influencia energia, disposição e recuperação ao longo do mês, e entender isso ajuda a treinar melhor — sem virar refém de tabelinhas rígidas que a internet adora vender.

Treinar menstruada pode: como adaptar o treino às fases do ciclo menstrual com segurança

Primeiro, o essencial: treinar menstruada é seguro

Não existe nenhuma contraindicação fisiológica para exercício durante a menstruação em mulheres saudáveis. Pelo contrário: a atividade física libera endorfinas, melhora o fluxo sanguíneo e tem efeito analgésico natural. Revisões sobre dismenorreia (a cólica menstrual) — como a publicada na Cochrane por Armour e colaboradores (2019) — indicam que o exercício regular reduz a intensidade da dor menstrual, com efeito comparável ao de alguns analgésicos em casos leves a moderados.

O que existe, e precisa ser respeitado, é a individualidade. Algumas mulheres treinam normalmente todos os dias do ciclo e batem recordes menstruadas. Outras sentem queda real de energia nos primeiros dias e rendem melhor reduzindo a intensidade. As duas experiências são legítimas — o erro é transformar qualquer uma delas em regra universal.

As fases do ciclo e o que a ciência realmente sabe

Um ciclo típico de 28 dias (com variação normal entre 21 e 35) tem quatro momentos relevantes para o treino:

Menstruação (dias 1-5)

Estrogênio e progesterona estão no ponto mais baixo. Algumas mulheres sentem fadiga, cólica e desconforto nos primeiros 1-2 dias; outras se sentem até aliviadas após a fase pré-menstrual. Curiosidade que surpreende: com os hormônios baixos, muitas mulheres relatam boa disposição para força a partir do 2º-3º dia. Treine conforme a disposição real do dia.

Fase folicular (até a ovulação, ~dia 14)

O estrogênio sobe progressivamente. É a fase em que muitas mulheres relatam mais energia, melhor recuperação e maior tolerância a volume e carga. Se você quer progredir em exercícios pesados ou testar cargas, esse costuma ser um bom momento. Detalho essa lógica no artigo sobre fases folicular e lútea no treino.

Ovulação (~dia 14)

Pico de estrogênio e força frequentemente alta. Há discussão na literatura sobre possível maior frouxidão ligamentar nesse período e risco de lesão de joelho em esportes de mudança de direção — a evidência não é definitiva, mas reforça o que sempre prego: técnica bem feita e progressão sensata em todas as fases.

Fase lútea e TPM (dias 15-28)

A progesterona domina. A temperatura corporal sobe levemente, pode haver retenção de líquido (aquele 1-2 kg a mais na balança que não é gordura), mais fome e, na semana final, os sintomas de TPM: irritabilidade, sono ruim, queda de disposição. Aqui vale reduzir expectativas de recorde e manter a constância — treinos bem executados, mesmo que com carga um pouco menor. A musculação, aliás, ajuda nos sintomas: escrevi sobre isso em musculação e TPM.

O que dizem os estudos sobre "periodizar pelo ciclo"

Aqui vai a parte honesta que os vídeos virais não contam. Revisões sistemáticas — como a de McNulty e colaboradores (2020) na Sports Medicine — encontraram efeitos pequenos e muito variáveis das fases do ciclo sobre o desempenho, com estudos de qualidade limitada. Ou seja: a ciência não sustenta que você precise montar o treino em função do ciclo, nem que treinar "na fase errada" desperdice seu esforço.

Minha leitura prática, e a de boa parte dos pesquisadores da área: use o ciclo como informação, não como prisão. Registre por 2-3 meses como você se sente em cada fase (aplicativos de ciclo ajudam muito). Se um padrão aparecer — por exemplo, força ótima na folicular e sono ruim na lútea final —, ajuste com inteligência. Se não aparecer, treine normalmente o mês inteiro. O que constrói resultado é a soma de meses de progressão de carga consistente, não a perfeição de cada semana isolada.

Como ajustar o treino na prática (sem complicar)

  • Dias 1-2 com cólica ou fadiga: reduza intensidade ou volume — uma caminhada, mobilidade ou um treino mais leve valem muito mais que ficar parada. Movimento costuma aliviar a cólica leve, não piorar.
  • Sentindo-se bem menstruada? Treine normal. Não existe motivo para "poupar-se" por protocolo.
  • Fase folicular: aproveite para os treinos mais pesados e tentativas de progressão.
  • Lútea final/TPM: mantenha a rotina, aceite cargas 5-10% menores se necessário, priorize sono e reduza cafeína tardia.
  • Balança na TPM: ignore. Retenção de líquido mascara qualquer avaliação — compare pesos entre fases equivalentes do ciclo.

Para quem treina comigo visando emagrecimento, esse último ponto é crucial: muitas alunas desanimam ao ver a balança subir na fase lútea, quando na verdade o processo está andando. Entender o próprio corpo protege a motivação — e motivação protegida é aderência, que é o que emagrece. Eu sei bem o peso disso: nos meus mais de 40 kg perdidos, aprender a interpretar as oscilações da balança foi tão importante quanto o treino em si.

Quando a dor NÃO é normal: procure investigação

Preciso ser enfático aqui. Cólica leve a moderada, que melhora com analgésico comum, calor ou exercício, é comum. Mas dor incapacitante — que te derruba na cama todo mês, não responde a analgésicos, vem com fluxo muito intenso, dor nas relações ou sintomas intestinais cíclicos — não é "frescura" nem "normal de mulher". Pode ser sinal de endometriose, adenomiose, miomas ou outras condições que merecem diagnóstico. A endometriose, por exemplo, atinge cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva e leva em média anos até ser diagnosticada, justamente porque a dor é normalizada.

Se esse é o seu caso, procure um ginecologista. E saiba que o exercício continua sendo aliado no manejo dessas condições — escrevi sobre isso em endometriose e exercício —, mas precisa caminhar junto com o tratamento médico, não no lugar dele. O mesmo vale se seus ciclos são muito irregulares ou se a menstruação sumiu com o aumento dos treinos: amenorreia em quem treina muito e come pouco é sinal de alerta de baixa disponibilidade energética, não troféu de dedicação.

Nutrição e recuperação ao longo do ciclo

Alguns cuidados simples que fazem diferença real:

  1. Ferro: o fluxo menstrual aumenta a perda de ferro. Mulheres que treinam têm risco maior de deficiência — inclua alimentos ricos em ferro e, se houver cansaço persistente, converse com seu médico sobre exames.
  2. Fome na fase lútea: o gasto energético sobe discretamente e a fome também. Planeje lanches com proteína e fibra em vez de lutar na força de vontade contra o doce das 16h.
  3. Sono: a TPM pode atrapalhar o sono, e sono ruim derruba treino e controle alimentar. Rotina de sono vale mais nessa fase do que em qualquer outra.
  4. Hidratação: ajuda tanto na retenção de líquido quanto na cólica.

Minha conclusão honesta

Treinar menstruada pode, é seguro para a maioria e frequentemente alivia sintomas. O ciclo influencia disposição e desempenho de forma real, porém individual e menos dramática do que a internet sugere — use-o como informação para ajustar, não como desculpa para parar nem como tabela rígida a obedecer. Registre seus padrões, treine conforme o dia real (não o dia teórico), ignore a balança na TPM e mantenha a constância no mês inteiro. E, acima de tudo: dor incapacitante merece médico, não silêncio. Corpo entendido é corpo que evolui — em qualquer fase do ciclo.

Neste vídeo, o Leandro Twin explica de forma prática como encarar o treino durante o período menstrual — um bom complemento ao que abordo aqui.

Referências

  • McNulty KL, et al. The effects of menstrual cycle phase on exercise performance in eumenorrheic women: a systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, 2020.
  • Armour M, et al. Exercise for dysmenorrhoea. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2019.
  • Elliott-Sale KJ, et al. Methodological considerations for studies in sport and exercise science with women as participants. Sports Medicine, 2021.

Montinho Personal Trainer

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